No universo profissional existem pessoas de todos os tipos, aqueles que preferem uma rotina de escritório e aqueles que preferem a ”atividade de campo”. Também tem aqueles que gostam de algo mais calmo, mas existem os que gostam de atividades que vão tirar a zona de conforto, com atividades mais extremas.


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Seguindo a nossa séria de matérias “Profissões que saem da zona de conforto”, conversamos com Daniel Michael Miller, 42 anos, para entender um pouco mais sobre alpinismo. Daniel é alpinista industrial, IRATA 3, há 13 anos. Além disso, também é supervisor de acesso por corda.

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Daniel conta um pouco sobre como começou e a visão que tinha do mercado na época:

Comecei em 2005 com uma indicação de um amigo, que me chamou para fazer o curso de IRATA em Macaé. Este mesmo amigo estava trabalhando no estaleiro Mauá com acesso por cordas com limpeza de tanques de navios de petróleo. Tinha muita demanda de trabalho na época, e pouca gente qualificada, e como na época o Brasil não tinha uma norma que regia os trabalhos de acesso por cordas, o Brasil aceitava a norma e os procedimentos da IRATA.

O mercado na época era muito carente de pessoas qualificadas em acesso por cordas. Quando eu fiz o IRATA em 2005, meu número era 3255, e hoje está acima de 120000, um crescimento de quase cem mil IRATAS no mundo. Os salários de um IRATA 3 ou inspetor na época poderia chegar a mil reais por dia.

 

O primeiro serviço também é marcante, ainda mais em uma profissão que você não fica com os pés no chão. O IRATA contou como foi o primeiro trabalho dele nas alturas:

Meu primeiro trabalho foi em uma empresa que prestava serviços de manutenção, reparo e inspeção de equipamentos em plataformas de petróleo da Petrobrás. O primeiro trabalho foi uma parada de produção(parada em que uma plataforma de petróleo se da de tempos em tempos para a troca de equipamentos). Trabalhei na troca do flare(queimador) no turno da noite. Foi um trabalho incrível. Trabalhamos pendurados a 130 metros da lamina d’água trocando equipamentos de 400Kg.

Foto: Daniel Muller

Quando falamos em altura vem sempre aquele frio na barriga. Como um alpinista industrial fica praticamente o dia todo nas alturas, equipamentos de qualidade são essenciais. Para garantir a segurança dos alpinistas e preservar a qualidade dos equipamentos, existe a NR35.

 

O que é NR35?

É uma norma regulamentadora que visa a segurança do alpinista, estabelecendo requisitos mínimos para a segurança. Daniel comentou sobre a norma e falou um pouco sobre a importância dela para o crescimento da prática:

No início da NR35, houve muita discussão para se chegar a um procedimento adequado as normas nacionais e internacionais, e equipamentos. Não tínhamos normas nem equipamentos que seguissem um procedimento, e usávamos equipamentos importados e utilizávamos a certificação internacional IRATA.

Com a chegada das normas de trabalho em altura e acesso por cordas, houve muitas mudanças em procedimentos e equipamentos. A IRATA teve que criar a IRATA Brasil para se adequar as normas nacionais e ter validade aqui no Brasil. Hoje, alguns equipamentos considerados como EPI, não são mais aceitos no Brasil sem o certificado CA, como por exemplo: cinto, trava quedas e capacete, que antes eram todos de marcas internacionais, mas como em sua grande maioria não tem CA e sim o CE que rege as normas internacionais de qualidade.

O esporte ganhou muito com as normas e procedimentos. Não tínhamos padrões para operar equipamentos nem a forma de executar atividades esportivas sem garantir a segurança. Hoje o número de acidentes no esporte e na área profissional é muito pequeno,  já que os equipamentos são de alta qualidade e os procedimentos permitem que se execute uma atividade com praticamente risco zero, claro se seguido à risca.

 

Com o passar do tempo a tendência de um mercado em ascensão é ganhar cada vez mais os holofotes, o IRATA falou um pouco do cenário atual do alpinismo industrial e realizou uma projeção para os próximos 10 anos:

O mercado hoje está com muitos profissionais na área de acesso por corda e com muitos deles com diversas qualificações como: inspetor de solda, soldador, pintor, caldeireiro, projetistas, rigger, inspetores de equipamentos, mecânicos, eletricistas entre outros. Existem diversas áreas para a atuação do acesso por corda, mas a que mais se contrata e que tem os melhores salários são as áreas de manutenção e construção de plataforma de petróleo.

 

Um alpinista industrial pode trabalhar de inúmeras maneiras, e uma delas é embarcado em alto mar. Para algumas pessoas pode parecer algo incrível, mas Daniel fala que precisa ser muito forte emocionalmente para essa ”aventura”:

Ficar embarcado, mesmo que por poucos dias, não é fácil. Ficar longe da família, filhos e esposa é muito difícil. A rotina e a ausência de terra firme, requerem um controle emocional para quem vive em alto mar.

 

E para entendermos ainda mais a rotina, o supervisor de acesso por corda contou um pouco sobre a vida em alto mar:

A rotina de um alpinista industrial varia muito. Existem diversos tipos de escala de embarque. 15 por 15, folga proporcional ao tempo embarcado ou até mesmo bancos de hora. Dependendo do projeto, o escalador pode ficar até dois meses embarcado. Normalmente a jornada de trabalha embarcado é de 12 horas, podendo se estender por mais horas para a conclusão de um serviço emergencial.

Para iniciar qualquer atividade de acesso por cordas, é necessário fazer um plano de resgate e verificar que todos os envolvidos entenderam suas funções e sequência de procedimento. Para o início das atividades também é necessário a abertura de uma permissão de trabalho e que todos os envolvidos tenham lido, entendido e assinado este documento. A alimentação em plataforma é bem variada e é servida em vários, horários, fazendo com que todos se alimentem bem. Os camarotes normalmente são de duas pessoas e tem um serviço de quarto como em um hotel.

Troca de roupa de cama, lavagem das roupas de trabalho e de lazer são feitas também pela hotelaria. Em cada camarote tem um banheiro com chuveiro e no quarto uma televisão com diversos canais a cabo. Existem plataformas com sistema de internet liberado para todos.

 

Quer conhecer um pouco mais sobre alpinismo industrial e o cenário da prática? Acesse a matéria do Blog NEREA que falamos sobre acesso por corda de uma maneira mais geral.